C a r r e g a n d o . . .

12/07/2024

Desenhando mudanças em um instituto de ciência e tecnologia a partir de missões

Yurik Ostroski, consultor da WTT, comenta os principais elementos e etapas da iniciativa que vem sendo realizada junto a um instituto de ciência e tecnologia (ICT) com o intuito de que este se fortaleça enquanto agente proativo de inovação. Dividido em três fases, o projeto encontra-se atualmente no momento de análise interna e externa do ICT, compreendendo sua identidade, estrutura e governança, além dos desafios e oportunidades do contexto externo. Ostroski destaca a importância da inovação orientada por missões para integrar o ICT aos movimentos de desenvolvimento sustentável dos cenários nos quais se insere, e enfatiza a relevância de um olhar externo imparcial para facilitar a mudança organizacional e promover uma atuação conjunta e sinérgica entre diferentes atores de um ecossistema.

WTT está no meio de uma trajetória de trabalho com um instituto de ciência e tecnologia (ICT) para torná-lo um agente proativo de inovação. Quais etapas e marcos desse projeto tu destacas?

O projeto tem três grandes fases: a primeira é de exploração, que consiste em um olhar de diagnóstico tanto para as questões internas quanto para o contexto externo da organização. A segunda é o codesenvolvimento de produtos que estamos propondo. Por último, temos a implementação desses produtos, que nada mais é do que os desdobramentos e o acompanhamento do que foi desenvolvido. Todas as etapas, logicamente, têm sua importância, mas vale destacar, nessa etapa de exploração, o mergulho no contexto interno da organização. É inclusive o momento em que estamos agora com esse ICT. Esse mergulho leva a reflexões sobre a identidade da organização. Por que ela existe? Qual é o seu propósito naquele contexto? É um olhar para sua estrutura, para suas questões de governança. Levamos em conta se a organização é mantida por outra, se há alguma influência nesse sentido, quais suas macroestratégias e suas capacidades internas de entrega de soluções.

Em paralelo, como comentei, essa etapa de exploração requer também um olhar para o contexto externo: olhamos para a identificação dos desafios e das oportunidades desse cenário externo. No caso desse ICT, estamos olhando para missões. A condução baseada na abordagem de inovação orientada por missão para que esse ICT possa se integrar aos principais movimentos de desenvolvimento sustentável da Amazônia. A finalidade é essa integração com um olhar regenerativo e inclusivo, que estimule a conexão com os principais atores e iniciativas que já estão em curso no território. Precisamos estimular, cada vez mais, que os setores e as organizações que trabalham para a conservação do bioma amazônico e bem-viver das populações e comunidades da região atuem de forma integrada, sinérgica e conjunta. Há muitas visões de transformação semelhantes, seja do governo, de organizações privadas ou do terceiro setor. Há propósitos de transformação semelhantes e precisamos evitar sobreposições. É preciso unir forças para criar um impacto coletivo e, para isso, o olhar para o contexto externo é importante porque ele nos traz esses elementos sobre quem já está trabalhando esses temas, quais as oportunidades de sinergia, de colaboração.

Quais os principais desafios que existem nesse trabalho de construir, junto a uma organização, processos de mudanças?

A inovação e as mudanças que vêm com ela trazem ganhos e geração de valor para a organização, mas elas exigem esforço, adaptações, novos processos e novas capacidades. Exigem a saída da zona de conforto. Talvez os movimentos iniciais para sair da zona de conforto sejam os mais desafiadores. Eles acontecem quando é necessária uma mudança de perspectiva, uma quebra de paradigmas para a organização. São os primeiros passos em direção ao novo, mas é um novo que ainda não se sabe exatamente o que é, pois sempre há incertezas no processo. É importante desenhar e refinar conjuntamente com a organização o seu propósito e a sua visão de transformação, pois são essas definições que sustentam um plano de ação e novos processos. Quando definimos o “porquê” e o “para quê”, sustentamos o “como”. É importante estabelecer essas definições para lidar com os desafios do processo de mudança.

Como a abordagem de inovação orientada por missões tem se relacionado com esse projeto?

A abordagem se relaciona totalmente com esse projeto à medida que, para tornar-se um agente proativo de inovação para o bioma amazônico, esse ICT precisa se conectar aos desafios do contexto, aos diferentes públicos e, principalmente, aos grandes temas e alavancas coletivamente eleitos como prioritários para construção dos novos cenários – nesse caso, para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A partir desses temas e alavancas, criam-se as governanças multi-stakeholder: governanças que integram setores e diferentes atores com interesses por vezes diversos, mas com visões semelhantes. Com essa governança pré-estabelecida, criam-se os planos de ação. Aqui, os desdobramentos são focados no fazer, na prática, mas sem esquecer de monitorar o processo e de adaptar o plano de ação à realidade que vai se apresentando e se transformando. Esse é um movimento contínuo de entendimento e adaptação.

Quando pode ser interesse para uma organização contar com esse olhar externo e com a abordagem de missão?

É interessante contar com um olhar externo à medida que é preciso de uma escuta imparcial contando com um agente neutro no processo. Nem sempre os públicos internos se sentem à vontade em se colocar em questões mais delicadas. Por isso, nossa função é escutar, trazer os temas de forma discreta, mas também garantindo que todos os pontos sejam considerados para uma eventual revisão estratégica e para um processo de mudança. Fazemos uma escuta atenta, sistematizamos todos esses pontos, convergências, divergências, e trazemos para uma interpretação coletiva a identificação do que está nascendo e do que precisa ser considerado. Para isso um agente externo é muito relevante. Muitas vezes a gente assume uma função de facilitador de conversas necessárias, mas que não acontecem organicamente entre as pessoas da organização. São conversas fundamentais para o processo de inovação, para as mudanças necessárias. Conduzir esse processo de mudança em uma organização a partir da abordagem de missões vai estimular que o público interno reflita sobre os sistemas em que a organização está inserida.

Quando discutimos missões, olhamos para fora. E não só no sentido do entendimento das necessidades dos clientes e dos públicos-alvo, mas no sentido de todos os impactos que a organização está causando ou pode causar e influenciar dentro da sociedade, ou de um território específico. É um olhar maior para o futuro do planeta, com vários desafios sistêmicos à nossa volta. Tudo isso faz parte do contexto da organização. Uma instituição não consegue se isolar desse contexto quando se orienta por missões porque são processos interdependentes. Você acaba, mais cedo ou mais tarde, impactado pelo contexto. Unir-se a grandes direcionamentos governamentais, de política públicas e construir junto com os demais atores esse movimento de transformação é fundamental quando olhamos para a inovação orientada por missões.