C a r r e g a n d o . . .

20/02/2024

 [Fala, Cientista!] Entrevista com Anderson Formiga sobre desenvolvimento de tecnologia de revestimento de frutos para agricultura familiar

Em entrevista exclusiva para WTT na série “Fala, Cientista”, o pesquisador Anderson Formiga compartilha percepções sobre o projeto de revestimento comestível que pode impactar de diversas formas positivas o dia a dia dos pequenos agricultores da região do semiárido brasileiro.

Doutor em Engenharia de Alimentos pela Unicamp, Formiga traz consigo, além da bagagem acadêmica, uma perspectiva a partir do nordeste brasileiro, mais especificamente a região do Semiárido – para a qual o desenvolvimento da tecnologia está sendo focado. Com coordenação de WTT, o projeto tem a Pesquisa e Desenvolvimento liderados pelo INSA, Instituto Nacional do Semiárido.

Priorizando a mucilagem de palma devido ao seu baixo custo e disponibilidade na região do sertão da Paraíba, o projeto tem como objetivo o desenvolvimento de uma inovação acessível e prática para as comunidades rurais. O intuito é que o revestimento possa ser aplicado pelos próprios produtores na superfície dos frutos e, com isso, aumentar a vida de prateleira dos produtos, impactando em questões de transporte e refrigeração, além de valorizar a comercialização da palma, da qual vem a matéria prima do revestimento e produto de baixo custo abundante na região.

Destacando a simplicidade e baixo custo que a tecnologia mira, Formiga enfatiza o diferencial na valorização dos produtos locais e na capacitação dos pequenos agricultores. Ele discute também os obstáculos de trabalhar com materiais naturais e compartilha os próximos passos para transformar a mucilagem em um formato comercial acessível.

Palma, matéria-prima do revestimento. Foto: INSA.

 

Agora no início de 2024 foi finalizada uma etapa importante da iniciativa de desenvolvimento do revestimento. Em que situação está o projeto e o que já foi descoberto?

No momento, consolidamos os materiais que serão utilizados para fazer os revestimentos comestíveis. Estamos priorizando a mucilagem de palma, porque a palma é um produto de baixo custo e muito disponível na região do sertão da Paraíba, assim como em outros estados que acompanham o Semiárido Brasileiro. Nessa etapa, conseguimos resultados de laboratório que nos deram mais informações sobre a vida útil de armazenamento desses materiais sem refrigeração. Eles fermentam. Vimos então que vai ser necessário aplicar um tipo de tecnologia de conservação para preservar a mucilagem utilizada como matéria prima do revestimento comestível.

Teu foco estava na pesquisa do laboratório. Como foi esse processo?

Eu trabalho com a parte científica e desenvolvimento do produto. Testamos diversos materiais – palma, aloe vera. São vários testes de materiais e de tecnologias de revestimento. Há várias: blending, emulsões, etc. A tecnologia de aplicação layer by layer se mostrou a mais factível pela simplicidade. Quando trabalhamos com blending, por exemplo, é preciso fazer uma emulsão, usar um carboidrato ou um lipídio para fazer a emulsão – cera de abelha, por exemplo. Já precisaria de um emulsificante e, nesse caso, já seria um produto a mais para comprar. Então fomos testando. Os resultados de aloe vera e palma foram muito semelhantes, mas aloe vera já tem apelo comercial – creme, shampoo e cosméticos. Já a palma não. Então focamos na palma justamente para valorizá-la. Muito desse material é esquecido pela falta de apelo comercial. Então um produtor que hoje já  produz e utiliza a palma para forragens pode se interessar em comercializá-la para o revestimento também. Ele pode agregar valor na plantação que já está espalhada por aí. 

Palma foi escolhida como matéria do revestimento para valorizar produtos da região do semiárido e pelo custo baixo. Foto: INSA.

 

E além do produtor de palma, qual é o impacto de uma tecnologia como essa para a agricultura familiar?

Eu dou como exemplo o que eu vejo, tanto nas pesquisas que realizei no mestrado e doutorado, quanto em pesquisas de colegas: a maioria dos trabalhos que são desenvolvidos não são para os pequenos. São trabalhos de tecnologias que visam patentes, que visam aplicação em indústria, em média e grande escala. Nunca para o pequeno. Temos um grande diferencial quando há um financiamento focado em projetos para os pequenos agricultores porque são raras as pesquisas voltadas para essa realidade. O Nordeste tem muitos desafios a serem resolvidos, mas não tem investimento em ciência focada para isso. Então a gente vê o impacto disso na realidade: os pequenos agricultores são muitas vezes desassistidos, estão em uma região que enfrenta uma grande seca e uma onda de calor terrível. A nossa produção agrícola de fruticultura existe, porém o valor comercial desses produtos é mínimo. Por isso, temos que focar na valorização deles. Os nossos produtos têm que chegar com qualidade aos consumidores e o revestimento dá essa confiabilidade ao produto. Esse projeto é interessante porque vai valorizar o que é nosso.

Nesse sentido, quais outros diferenciais ou pontos de inovação que você vê nesse projeto?

Eu acredito que uma das coisas que diferencia esse de outros projetos é a parte de aplicação. Na academia, ainda focamos muito em criar tecnologias que não são voltadas para nossas realidades. Eu sou paraibano, vim do interior do Sertão, uma região pobre. Eu estava trabalhando com tecnologias que eram para Sul, Sudeste. Não eram para a nossa realidade. Aqui nesse projeto o principal diferencial é o custo, porque nós estamos trabalhando com matéria prima de basicamente custo zero. Estamos desenvolvendo uma técnica simples, que qualquer pessoa, com um manual de linguagem mais simplificada, consegue reproduzir. Não precisamos de nada sofisticado para reproduzir o que estamos fazendo. O principal desafio foi trazer uma tecnologia para a realidade do nosso Sertão. Para pessoas que muitas vezes não têm estudo ou não sabem ler. Foram feitas cartilhas, ilustrações para ajudar essas pessoas a conseguirem reproduzir o que foi ensaiado no laboratório. No laboratório temos especialistas. Passar para a população esse treinamento é um desafio imenso, mas é um diferencial para a gente, pois é muito simples e os resultados são muito interessantes. Custo baixo e simplificação da aplicação, esse são os diferenciais do projeto.

Testes da aplicação do revestimento, que aumenta vida de prateleira dos frutos. 

 

Qual foi o principal desafio com o qual você se deparou enquanto pesquisador?

A gente trabalha com matéria 100% natural. Não é inserido nenhum produto químico no revestimento. Não colocamos nada que seja sofisticado. Isso é muito complexo. Também não podemos utilizar um equipamento inacessível ou um produto especial que tenha que ser comprado, porque isso encarece, dificulta o acesso das pessoas para as quais o revestimento se destina. Então o principal desafio de desenvolver uma tecnologia como essa é não ter nada sofisticado. A nossa técnica é muito simples e pode até surpreender pela simplicidade. 

E finalizada essa etapa de entendimento do material, quais seriam os próximos passos?

Ainda estamos consolidando essa próxima fase, mas a ideia seria transformar a mucilagem em um formato comercial. Quando o produto é líquido ele tem um peso, um custo. Ao transformar em pó, acreditamos que a durabilidade do produto pode ser estender, e isso que precisamos testar. Transporte e embalagem também se simplificam em uma versão em pó. O produtor pode comprar o pó com custo muito baixo, dilui-lo em água potável e aplicar. Ainda estamos estruturando esses próximos passos.