C a r r e g a n d o . . .

02/05/2024

Entrevista com Gaston Kremer, novo Diretor Executivo de WTT

Gaston Kremer, o novo Diretor Executivo da WTT, traz consigo uma jornada diversificada e rica em experiências que o levam agora à liderança da organização em sua próxima fase de desenvolvimento. Graduado em Relações Internacionais e Pós-graduado em Gestão da Inovação, Kremer sempre esteve comprometido em criar pontes entre diferentes realidades. Sua trajetória na WTT começou como parte de um momento de transição da organização, em que sua experiência em tecnologias em territórios e na intermediação de relações se mostraram cruciais. Ao longo de seus 8 anos na organização, testemunhou mudanças significativas, incluindo a evolução para uma abordagem de coprodução de inovação e um foco crescente em influenciar políticas públicas. Na entrevista, o novo Diretor Executivo da organização compartilha suas visões sobre a trajetória, o cenário e os desafios de WTT, bem como as grandes apostas da organização em seu caminho rumo a um impacto socioambiental ainda mais significativo. 

Saiba mais sobre as transições de equipe de WTT aqui.

 

Você participou de outros projetos e empreendimentos sociais antes de WTT. Como foi esse caminho antes da WTT?

Eu me formei em Relações Internacionais e sempre soube que o trabalho que eu iria fazer teria relação com criar pontes entre distintas realidades. Tive várias experiências profissionais durante e depois da faculdade que, de alguma maneira, tangenciam o que a gente faz hoje em WTT – desde trabalhar com arte contemporânea em uma mostra que discutia identidade, fronteira, territórios, até trabalhar na Federação das Indústrias com normas e certificações internacionais. Entendo que essas experiências me prepararam para chegar em WTT.

E como foi sua jornada dentro de WTT?

Eu trabalhava com um fellow da Ashoka em um negócio social de acesso a energia e desenvolvimento rural e, naquela época, WTT estava passando por uma mudança: a organização estava começando a atuar também com desafios de impacto, para além de tecnologias disruptivas, que tinha sido o começo da organização. Então eles identificaram que minha experiência com tecnologias em território e intermediação de relações seriam importantes para aproximar esses contextos a ecossistemas de inovação, academia, financiadores. Eu entrei então na WTT nesse novo momento para atuar especificamente no projeto Água +Acesso, uma chamada aberta que selecionou e pilotou soluções inovadoras para os desafios de gestão comunitária de água na Amazônia e no Semiárido Brasileiro. De lá pra cá, eu fui ampliando meu escopo de responsabilidade. Passei de Gestor de Projetos para Coordenador de Projetos e depois para Gerente de Programas. E agora para Diretor Executivo.

 

Algodão Sustentável: Projeto de desafio de impacto na temática de algodão agroecológico Sertão Central e Sertão dos Crateús (Semiárido Brasileiro) realizado pela WTT entre 2018 – 2021.

 

Nesses 8 anos de WTT você viu a organização mudar algumas vezes. Quais fases você destaca dessa trajetória institucional e em que momento a organização está hoje?

A trajetória da WTT é focada em identificar oportunidades da relação dos ecossistemas de inovação com desafios socioambientais e que estão comumente nos territórios, nos povos e comunidades tradicionais, nos cenários urbanos com comunidades periféricas. Transitar entre esses setores da sociedade nos permite identificar quais são oportunidades de atuação e entender onde podemos destravar soluções e caminhos para o impacto socioambiental, que é nossa grande missão. WTT começa com a estratégia de investir em tecnologias disruptivas. Expandimos então – e foi onde eu entrei – para desafios de impacto. Depois, eu diria que temos dois grandes saltos: o primeiro do Centro de Orquestração de Inovações com uma metodologia de colaborações cientificas. Aqui, partimos de desafios socioambientais, mas vamos buscar construir colaborações cientificas para desenvolver uma nova solução. Ainda há o elemento incremental de contexto, como nos desafios de impacto, mas no COI há o elemento de colaboração científica-tecnológica. Assim, WTT se posiciona não apenas como um orquestrador de ecossistemas, mas também como um orquestrador de pesquisa, desenvolvimento e inovação. O segundo grande salto que damos é ao entendermos que essas metodologias de gestão de inovação precisam também ter um respaldo em políticas públicas para fazer uma mudança sistêmica. Por isso, a partir do COI e trazendo aprendizados de todas as outras metodologias que utilizamos, WTT entende que, para além de influenciar em mercados ou na disseminação de tecnologias, é preciso fazer incidência em políticas públicas. Esse eu diria que é o último grande aprendizado de WTT e que a gente vem perseguindo nos últimos anos.

 

 


Fórum organizado por WTT em outubro de 2023 para debater a metodologia de inovação orientada por missões dentro de políticas de ciência, tecnologia e inovação. Foto: Sofia Colucci.

 

Quais as principais temáticas trabalhadas pela organização atualmente?

Trabalhamos com aqueles temas que são importantes para os territórios, mas em perspectiva dos grandes desafios globais. Nesse sentido, trabalhamos desde, por exemplo, a inclusão digital e soluções digitais apropriadas para comunidades indígenas do Gran Chaco Americano, até os sistemas de reuso de águas na região do semiárido brasileiro. Olhamos para o desenvolvimento de biomateriais a partir da sociobiodiversidade da Amazônia e da relação indústria-universidade-comunidade. Todos esses temas giram em torno de uma WTT climática, que tem uma visão global, mas que é arraigada em desafios territoriais. Coordenamos recentemente laboratórios de soluções climáticas inovadoras com participantes de países africanos e países da América Central. Esse tipo de iniciativa dialoga diretamente com o que a gente vem fazendo: trabalhar em grandes desafios atuais da humanidade, que dizem respeito à crise climática, mas também às desigualdades persistentes. Temos que ter esse olhar de desafio, de oportunidade no eixo que conecta território, sociobiodiversidade, sistemas alimentares, e política climática.

 

Você assume a organização em que momento? Qual é o cenário para WTT?

WTT hoje está concentrada em levar esses aprendizados de processos de coprodução de inovação para o âmbito de políticas públicas a nível de países, mas também a acordos climáticos e processos multilaterais, como G20, Acordo de Paris, entre outros. Aqui será chave capitalizar a posição de Fundación Avina, organização fundadora de WTT e da qual fazemos parte do seu ecossistema, no que diz respeito a incidência em movimentos internacionais de inovação democrática, filantropia e ação climática. Queremos levar essa lógica de debater a coprodução de inovação para além dos casos nos quais a gente opera. Eu diria que WTT agora tem esse viés de ser uma organização que, para além de se posicionar em colaboração científica, em desdobramento de soluções, ela também se posiciona como uma WTT política, climática e global. Dentro do nosso modelo de atuação, o objetivo é ampliar essa incidência política, ao passo que a gente continua gerando casos para alimentar essas construções. O cenário de WTT é positivo, os últimos anos foram de consolidação de uma equipe que tem um trabalho de comunicação, de conhecimento em temas como participação social e de coprodução de inovação muito sólidos. Expandimos a equipe e agora temos o desafio de seguir esse movimento de crescimento, enquanto buscamos financiamentos que nos apoiem nesse caminho que é complexo e de longo prazo.

 

Kremer (primeiro à direita) em painel da COP 28, em Dubai (2023). Foto: Danila Bustamante

 

Como você imagina o futuro de WTT?

Eu vejo o futuro de WTT como um aprofundamento da nossa trajetória até agora. Criar, ao mesmo tempo, um espaço dentro dos ecossistemas de inovação, onde estão já os atores tradicionais de ciência, tecnologia e inovação, mas também entender e destacar o valor da coprodução de inovação junto a atores sociais e de povos e comunidades dentro de processos científico tecnológicos. Até pelas características de estarmos no Sul Global e por aquilo que se demanda de outros países da região: de se trabalhar a partir da sociobiodiversidade das realidades locais, de se olhar para a bioeconomia, para a regeneração dos biomas com justiça social e neoindustrialização. Pensamos em WTT sendo referência na condução desses processos participativos focando em ciência, tecnologia e inovação. Por outro lado, queremos também apoiar movimentos sociais, organizações sociais a entenderem o campo de política científica tecnológica de inovação como um campo de luta, de atuação política, de expandir essas demandas desses movimentos para esse âmbito das políticas de ciência, tecnologia e inovação. Nesse sentido, eu acredito que a grande aposta de WTT é que a participação social e a coprodução de inovações apropriadas aos contextos são as grandes contribuições a soluções para a crise climática e para as desigualdades persistentes que atingem esses territórios do Sul global. Se gerarmos mais inovações com essas pessoas e a partir dessas perspectivas, estaremos no caminho certo.