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14/05/2024

[Fala, Cientista!] Tecnologias para reutilização de água na região do Semiárido brasileiro: entrevista com George Lambais

A busca por alternativas para conviver com a seca no Semiárido Brasileiro acontece há muito tempo, e as experiências com tecnologias de reúso de águas ganham relevância. Entretanto, nem sempre esse reaproveitamento é feito de forma segura, especialmente para quem faz o uso desses sistemas e, muitas vezes, há lacunas de dados sobre a qualidade da água reaproveitada. É com esse cenário que pretende contribuir o projeto multidisciplinar de melhoria do Sistema de Reúso de Águas Cinzas por Dupla Filtração.

Com participação de organizações sociais, universidades, órgãos governamentais e terceiro setor, o projeto tem como objetivo promover, com segurança, saneamento e fonte de água de reúso de qualidade para produção agroecológica de famílias da região do semiárido. O Sistema é uma das várias tecnologias que trata a água cinza – aquela utilizada nas tarefas domésticas em casa, exceto a do vaso sanitário – e a reverte para a produção agroecológica da família.

Em entrevista exclusiva, o pesquisador do INSA, George Lambais, destaca as diferentes fases do projeto e comenta os avanços do monitoramento dos sistemas que estão atendendo 9 famílias hoje em três regiões distintas do estado da Paraíba. Biólogo com mestrado em Fisiologia e Bioquímica de Plantas e doutorado em Química na Agricultura e no Ambiente, Lambais destaca que o projeto vem buscando não apenas validar a tecnologia, mas também reunir dados robustos para embasar políticas públicas eficazes de saneamento rural. Os desafios logísticos e comunicacionais sinalizam também a complexidade e a abrangência dessa iniciativa, que avança para além da questão técnica para abarcar uma visão ampliada de saúde e bem-estar comunitário.

 

Como começou seu envolvimento com tecnologias de reuso de águas cinzas?

Estou no Instituto Nacional do Semiárido (INSA) desde 2016, completando 8 anos em julho. Minha vinda para o INSA se deu para além da pesquisa, também pela estruturação de laboratórios aqui. Quando cheguei, a instituição estava em um momento de instalação dos laboratórios. Assim, fui responsável pela estruturação do laboratório de Microbiologia Ambiental, que foi um dos primeiros no INSA a funcionar através da implementação de metodologias específicas dessa área. Junto com ele, fui alocado como pesquisador no núcleo de recursos hídricos e, quando cheguei no setor, estávamos no início de um projeto com tecnologia de reuso. Foi aí que começou essa trajetória.

Há diferentes tecnologias de reuso de águas, certo?

Sim. Essa primeira tecnologia que estávamos estudando – e que hoje é chamada SARA – Saneamento Ambiental e Reúso de Água – tratava-se de reuso de esgoto bruto para fins agrícolas. Em 2017, demos o pontapé inicial no monitoramento da tecnologia SARA e, em 2018, já tínhamos uma base consistente de resultados apontando para eficiência de tratamento. Até o final de 2018, trabalhamos com monitoramento de sistemas de reuso na zona rural do município de Cubati, na Paraíba. Mensalmente, coletávamos a água e avaliávamos o desempenho do sistema principalmente na remoção de bactérias patogênicas, como a Escherichia coli, que é um indicativo importante, tanto para água potável quanto para água de reuso. Paralelamente a essa tecnologia SARA, começamos a trabalhar também com o monitoramento da tecnologia do Bioágua. Aproveitamos que estávamos na mesma localidade onde havia esses dois tipos de sistemas e começamos esse monitoramento. Eu classifico essa como uma primeira grande etapa do trabalho.

Quais são as diferenças desses dois tipos de sistemas de tratamento de água?

Com o SARA, nós trabalhávamos com o reuso total da água da casa, incluindo as águas fecais. E o outro sistema, Bioágua, é uma metodologia de reutilização de água cinza, ou seja, todas as águas da casa, exceto a água do vaso sanitário. Outra diferença é que o SARA é composto por um reator anaeróbio com lagoa de polimento e por isso ele consegue tratar todo o esgoto da família. Já no Bioágua, ocorre uma filtração física e biológica das águas cinzas através da composição desse sistema de tratamento. Esse sistema de reuso que estamos trabalhando agora junto com WTT, INSA, Patac e outras organizações é uma adaptação do Bioágua, que estamos chamando de Dupla Filtração.

Sistema de reúso de água de dupla filtração instalado no território Benefício, no município de Esperança (Paraíba). Foto: Camelo/ASP-TA Território da Borborema

 

Como vocês chegaram nesse sistema de Dupla Filtração que está sendo desenvolvido hoje com WTT e outros parceiros?

Em 2019, conhecemos a WTT em um evento em São Paulo e desde então viemos conversando a respeito de pesquisas e tecnologias na área de saneamento rural no semiárido basileiro. Desde então, ela nos provocou então a fazer um apanhado das tecnologias de reuso que existiam na literatura para, então, buscar uma validação e escala. Nesse momento do projeto (2022), foi crucial o levantamento de tecnologias realizado pelos pesquisadores do INSA, Mateus Mayer e Rodrigo Barbosa, ambos colegas do Núcleo de Recursos Hídricos. Eles se dedicaram então a essa primeira etapa de levantamento bibliográfico das tecnologias disponíveis e publicadas, para então apontar algumas tecnologias que poderiam ser promissoras para essa experimentação junto com a WTT. Fomos para o Quilombo Santa Rosa, em Boa Vista, na Paraíba, já dentro desse projeto com WTT, e monitoramos durante seis meses 3 tecnologias de reúso. Dessas três, a que teve melhor desempenho foi o sistema de Dupla Filtração. A tecnologia se mostrou muito promissora, a água não tinha nenhum cheiro, diminuiu muito a quantidade de E. coli, que é o indicador de patógenos. Em resumo, todas as variáveis monitoradas tiveram excelentes resultados para essa tecnologia.

Qual a diferença entre os tipos de água de reuso?

Basicamente temos a classificação de reuso restrito e irrestrito, baseada na regulamentação da OMS para irrigação na agricultura. Irrestrito é para qualquer cultura, inclusive para alimentos que são consumidos crus. Mas a água tem que estar com uma qualidade excelente. Já a água de uso restrito é apenas para as frutíferas e forrageiras com desenvolvimento bem acima do nível do solo. Nosso objetivo no projeto é conseguir que o sistema de tratamento entregue uma água com qualidade para o reuso irrestrito.

E depois de verificado o êxito da tecnologia de Dupla Filtração, qual foi o passo seguinte? Quantas famílias estão sendo monitoradas hoje?

A qualidade da água tratada pelo Sistema de Dupla Filtração estava muito boa, estava ali no patamar para reuso irrestrito. Mas aí ficou a dúvida: nós tínhamos só dois sistemas implantados nas famílias sendo analisadas. E duas famílias com dinâmica de geração de águas cinzas muito distintas. Aí ficou a questão: Será que esse resultado se repetirá em um número maior de famílias? Aqui termina a fase dois do projeto e iniciamos a fase três: aumentamos o universo amostral e seguimos com uma tecnologia só, a de Dupla Filtração. Hoje temos 9 famílias em monitoramento. Além desses sistemas que já estávamos acompanhando em Boa Vista, foram instalados também sistemas na zona rural de Campina Grande e no município de Esperança. Em março de 2024, iniciamos o monitoramento quinzenal. Queremos ver como a tecnologia funciona em escala, até para já pensar em termos de políticas públicas. Antes a gente podia dizer que a tecnologia era promissora, mas não podíamos ir muito além disso, pois eram apenas duas famílias. Agora sim teremos uma base de dados robusta com o aumento no número de sistemas implantados.

Imagens antes e depois de a água passar pelo sistema de tratamento de reuso. Foto: George Lambais.

 

O que esse monitoramento vem mostrando?

Nesses dados iniciais temos um panorama geral bom. Podemos dizer que em torno de 70% dos sistemas estão operando conforme o esperado, entregando água de boa qualidade. Os sistemas instalados em algumas famílias estão com parâmetros próximos ao que queremos, mas ainda com necessidade de alguns ajustes. Outros já apresentam números bem próximos aos que pretendemos chegar. É normal ver uma variação inicial, mas depois a tendência é se estabilizar, que é o que está ocorrendo. Por isso é importante continuar monitorando para ver a evolução. Os sistemas construídos em Campina Grande estão indo muito bem e, em Esperança, os resultados também são promissores. Há dois sistemas que precisamos observar com mais cuidado e entender o que está acontecendo – se é algum problema de manejo ou se o sistema não está funcionando corretamente. Nunca tivemos uma base de dados tão robusta em projetos com reuso de água aqui no laboratório, tanto de dados como de imagens. E isso é importante, por exemplo, para falar com o produtor, com as organizações sociais.

Isso já é um gancho para a minha próxima pergunta: é um projeto com muita ciência, muito dado, mas também muito campo e muita experiência prática. Estamos falando de uma tecnologia social. Como é a questão do contato e das trocas que se estabelecem dentro desse projeto?

Isso é muito interessante. Eu vim da academia, do doutorado, das publicações acadêmicas. E só de estar aqui no INSA, já entrei em um outro universo. Aqui a nossa pesquisa é diferente, ela é na ponta. Você está lá com o produtor. Eu tive que aprender a falar de outra forma para que a informação pudesse ser absorvida. É um desafio para quem é pesquisador e vem da academia. Um ponto muito importante é a relação que temos também com as organizações sociais: vamos aprendendo com eles, e eles vão aprendendo com a gente também. Mas foi um desafio porque esse também é um projeto que sempre tem devolutivas. Quando acaba uma fase, temos o momento de devolutiva com os agricultores, e também de escutar como foi a experiência deles, o que funcionou, o que tem que melhorar. Isso é muito interessante porque não é, por exemplo, um projeto que termina com a publicação de um artigo. Além disso, temos também as formações junto com os agricultores. Um ponto extremamente importante que viemos discutindo é a questão do manejo do sistema pelas famílias, principalmente da caixa de gordura. E as questões do cuidado com o sistema, leva-se em consideração também a divisão igualitária do trabalho, adaptação de componentes do sistema que são pesados (por exemplo, a tampa da caixa de gordura), entre outros. O projeto vai crescendo com as etapas e sempre junto com os agricultores.

Como você vê a perspectiva desse projeto se ampliando para uma política pública?

Isso também é muito interessante. No decorrer do projeto, começamos a pensar maior. A WTT nos trouxe uma provocação grande: como vamos pensar em uma política pública lá na frente? Queremos escalar essa tecnologia, mas para isso precisamos ter segurança. Para tomar uma proporção, por exemplo, do Programa Um Milhão de Cisternas, essa segurança é necessária, mas como então vamos nos organizar para isso? Qual vai ser a nossa base? Então isso dialoga já com os próximos passos do projeto. Em agosto devemos terminar o monitoramento e, a partir disso, teremos uma base de dados robusta e sólida. Teremos um passo acadêmico que também é importante com as publicações oriundas dessa pesquisa. Há também essa discussão sobre essa tecnologia compor o Plano Nacional de Saneamento Rural, o PNSR. Esse seria o grande desfecho. É um sonho, com certeza. Que o saneamento rural saia da gaveta, e que essa tecnologia se una a várias outras que existem na região do semiárido brasileiro.

Seminário de Saneamento Rural e Reúso de Águas realizado pela Articulação Nacional do Semiárido (ASA) em abril, em Pau dos Ferros (Rio Grande do Norte). Foto: Eixo de Educação e Comunicação do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA)

 

Uma questão importante de alguns projetos da WTT é a articulação de uma equipe especial que se complementa e se orienta para a solução de um desafio diagnosticado. Como é esse cenário de articulação com diferentes atores no projeto de reuso?

Eu acredito que quando juntou a WTT, as organizações sociais, INSA e a academia tivemos uma “liga” muito boa no projeto. É um projeto muito multidisciplinar: temos biólogo, engenheiro sanitarista, agrônomo, jornalista e muitos outros profissionais de diversas áreas do conhecimento. Juntamos uma equipe muito boa. E assim também vamos ampliando o horizonte. No início, por exemplo, nossa relação com as organizações sociais era só com o PATAC. Hoje, para trabalhar em outros territórios, já estamos em diálogo também com CENTRAC, Folia, COLETIVO, Polo da Borborema… Isso é muito interessante. Vale destacar também a questão do recurso aportado pela WTT. Esse o aporte que a WTT traz em um projeto novo nos permite rodar de outra forma, de uma forma mais independente. É algo que a gente pensa para os próprios laboratórios – que a gente consiga fazê-los girar de forma mais autossuficiente em termos financeiros.

Essa articulação em diferentes níveis é muito interessante, mas um projeto assim também traz desafios. Quais desafios você destaca nessa jornada?

Trabalhando com uma equipe grande e multidisciplinar, um dos desafios sempre vai ser o da comunicação. Os “blocos” do projeto estão interligados, então temos que estar bem organizados. Mas vencemos isso, e acredito que vencemos porque temos pessoas engajadas que estão dando uma energia extra para as coisas darem certo.

Outro grande desafio é a logística. E quando falamos de monitoramento, que é a etapa em que a gente está agora, a logística é o grande empecilho: você tem que ir para campo, coletar, voltar, analisar. Um exemplo: nesse monitoramento que estamos fazendo agora, a partir do momento em que coletamos a água, temos 24 horas para fazer as análises microbiológicas. Depois disso, ela não é mais válida para a análise da E. coli, por exemplo. Por isso, no início, debatemos muito sobre como iríamos fazer isso. No início do projeto também se falou em incluir outros estados como Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Mas com essa questão logística, não tinha como. Acredito que, para se montar projetos que necessitam de monitoramento microbiológico adequado, é preciso pensar muito bem na questão de logística e de quem irá fazer a análise. Esse é outro ponto: entender quem pode fazer essas análises, quem pode compor uma rede de laboratórios para dar mais amplitude a projetos assim. É complexo porque envolve muita gente, mas se estamos pensando lá na frente em uma política pública, temos que pensar nisso também. E outro desafio também é chamarmos para o projeto os profissionais da saúde e do serviço social, porque estamos ampliando nossa base de informações. Queremos saber sobre a saúde da família após a implantação dessa tecnologia. É importante esse olhar de rede para o projeto, pensando de forma estruturada e conectada, não apenas na questão da água, mas também na saúde e em outros aspectos. É um projeto de reuso, sim, mas também estamos tratando de saneamento, promovendo saúde.

Qual a importância de um projeto de reuso de águas para o Semiárido?

Há dois pontos principais. Um projeto assim é extremamente importante para o Semiárido porque estamos falando de saneamento, e saneamento é saúde. Se estamos promovendo saneamento, estamos promovendo saúde pública. E, na zona rural, esse impacto é ainda mais significativo. Com um projeto de reuso, estamos fazendo a coleta e o tratamento de esgotos das famílias e consequentemente gerando uma fonte de água que ela não teria disponível para usar na agricultura. A segunda questão que é muito importante no Semiárido, com certeza, é a produção de novas fontes de água. Com o reuso, temos uma água com nutrientes também, sendo possível uma fertirrigação, ou seja, irrigação e fertilização das plantas. Não são números muito elevados, mas esse aporte para o tipo de solo que é encontrado na região, que costuma ser nutricionalmente mais pobre em algumas localidades, já é importante. É como se fosse um adubo junto com a água. É uma fonte de água que a família não tinha. Ou que, às vezes ela tinha, mas de forma inapropriada, com risco de contaminação. Já se faz reuso há muito tempo aqui no Semiárido, mas muitas vezes sem segurança. O que estamos fazendo é melhorar algo que já era feito e promovendo tecnologias que possam garantir a segurança hídrica e alimentar nas propriedades de agricultura familiar.