C a r r e g a n d o . . .

14/03/2024

Inovação Orientada por Missões em Institutos de Ciência e Tecnologia: Entrevista com Maria Angélica Jung Marques

Gestora de Ciência, Tecnologia e Inovação da WTT, Maria Angélica Jung Marques comenta em entrevista o trabalho de WTT em colaboração com institutos de ciência e tecnologia para a adoção da abordagem de inovação orientada por missões e os desafios associados à implementação dessa perspectiva no dia a dia de um ICT. Ao destacar a importância de uma mudança de mindset e a inclusão de distintos atores no processo, Marques explica como essa abordagem pode catalisar impactos significativos tanto na instituição quanto no território em que opera, além de ser um gancho para a adoção de uma visão mais ampla e colaborativa para enfrentar desafios socioeconômicos complexos.

 

No que consiste o trabalho em conjunto com Institutos de Ciência e Tecnologia que WTT está iniciando?

Esse trabalho consiste em dar suporte e criar capacidades, junto aos Institutos de Ciência e Tecnologia, para a atuação com a abordagem de inovação orientada por missões. É um trabalho de desenvolver capacidades para tornar um Instituto de Ciência e Tecnologia um agente proativo no desenvolvimento de soluções e inovações orientadas por missões. O instituto começa a atuar então com um olhar diferenciado, com uma nova perspectiva. Há diferentes constituições de institutos: há os públicos, que são mantidos pelo Estado – e há também os privados, que, por sua vez, têm suas peculiaridades em relação às suas mantenedoras. A mantenedora geralmente é uma empresa que  define as demandas do ICT – isso é normal. Nesses casos, muito do que esses ICTs acabam produzindo e gerando é feito prioritariamente em função da demanda da mantenedora. O olhar para o território onde o ICT está instalado e do qual ele poderia atender as demandas acaba ficando em segundo plano. Por isso, são casos interessantes a se trabalhar a partir da abordagem de inovação orientada por missões.  

 

E o que a abordagem de Inovação Orientada por Missões pode trazer de positivo na mudança de um Instituto de Ciência e Tecnologia? 

Como estamos olhando para o impacto na sociedade ou no território onde esse instituto atua ou tem influência, não é suficiente trabalhar só uma abordagem interna. A abordagem de inovação orientada por missões permite descobrir, identificar e trabalhar de forma colaborativa com outros agentes do território na construção de soluções que afetam as comunidades. Eu diria que é uma visão para um ICT. A abordagem de inovação orientada por missões vai trazer ferramentas e instrumentos para que haja uma estratégia pensada de fora para dentro do ICT, e não só o inverso.

Visita da WTT ao Instituto Tecnológico Vale

 

Quais são os desafios de colocar isso em prática?

Um dos desafios é a cultura organizacional. Quando falamos de cultura, estamos falando de  práticas. Cultura nada mais é do que aquilo que se faz no dia a dia, e por isso culturas organizacionais são muito fortes, muito complexas. O grande desafio é trabalhar internamente para que uma organização perceba quais práticas ela tem que adotar, o que ela tem que começar a fazer – ou deixar de fazer – para ter sucesso nessa nova abordagem. Implementar uma nova abordagem não quer dizer fazer apenas aquilo, mas ela implica que uma organização mude algumas práticas. O desafio é identificar quais são as práticas necessárias para que se consiga efetivamente alcançar uma mudança. Lógico que, nesse percurso, a organização vai ter que descobrir as capacidades, as necessidades de aprendizagem, de instrumentos, de artefatos, de processos que são necessários. Por isso que é um processo de gestão de mudança: porque é um processo de mudança organizacional.

 

Qual é a diferença entre gestão de mudança e teoria de mudança?

A teoria de mudança é um instrumento que se usa para planejamento estratégico. Em uma teoria de mudança, colocamos a missão, a visão, as premissas de uma organização e construímos um conjunto de estratégias para projetar os impactos que queremos com essas estratégias. Teoria de mudança é um instrumento, um artefato de planejamento estratégico. Já a gestão de mudança tem origem na gestão organizacional e na mudança de processos internos de uma organização. Ela se origina na perspectiva da Psicologia Organizacional porque parte do indivíduo, mas evolui para um olhar mais sistêmico da organização. A gestão da mudança visa o estabelecimento de um conjunto de práticas que vai alterar o “como fazer”  da organização olhando para as pessoas, para os processos e para os artefatos da organização. A gestão da mudança pode também visar a implementação de uma estratégia, e às vezes pode ser algo pontual. Por exemplo, introduzir um software novo na rotina de uma organização. Isso implica em uma mudança de prática e é necessário gestão, comunicação, liderança, ouvir as partes. 

 

Como tu enxergas esse trabalho com os ICTs dentro do trabalho de WTT como um todo?

Eu acredito que esse trabalho está vinculado a também à mudança de mindset das instituições que atuam nos ecossistemas de inovação, em ajudá-las a se tornarem agentes proativos do sistema.  Por isso, é importante haver um processo diferenciado de colaboração, de inclusão de outros atores do ecossistema, de coproduzir inovação a partir dos grandes desafios sociais e ambientais onde estes institutos estão inseridos. É  um trabalho no qual é preciso olhar para fora da instituição e trazer outros atores para o mesmo processo, para um processo no qual eles também aprendem a  trabalhar de forma diferenciada com esse foco, com a abordagem de missões – que nunca é exclusiva. Não significa que essas organizações vão fazer apenas isso, mas que elas também podem fazer isso e que isso também traz benefícios. 

 

Por que essa não é uma abordagem exlcusiva? 

Porque um instituto continua seus desenvolvimentos estratégicos – por exemplo, desenvolver conhecimentos e tecnologias específicas importantes para a organização. E isso precisa de pesquisa básica e de pesquisa aplicada em campo. Esse tipo de desenvolvimento não vai deixar de acontecer em uma organização que adota a inovação orientada por missões. Isso é a natureza das instituições. Mas quando entendemos que uma organização quer ter um impacto no desenvolvimento socioeconômico de uma região, não basta apenas produzir uma tecnologia internamente. Nesse caso, é necessário ouvir o território, a comunidade, aprender a trabalhar com eles e entender que, possivelmente, não é apenas dessa tecnologia que eles precisam. 

Eu me lembro de um exemplo dado em um curso de Desenvolvimento Territorial Regional que eu fiz pela Organização Internacional do Trabalho: os agentes de desenvolvimento chegavam em um território e queriam propor mudanças, propor o uso de tecnologias em algo muito específico para melhorar a vida daquela comunidade, mas o que essa comunidade realmente precisava era de, por exemplo, um cemitério. Eles tinham outra dor e uma necessidade de cura daquela dor. Então não adiantava trazer uma solução maravilhosa para aquela comunidade se aquela solução não era, ainda, o que eles precisavam. A escuta e a atenção aos desafios efetivos são essenciais. E os desafios socioambientais são muito complexos e precisam do olhar dos sistemas complexos: se eu mexer em um ponto, provocará uma interação com dezenas de outros pontos. Por isso é necessário trabalhar de forma interativa e cíclica.