C a r r e g a n d o . . .

09/05/2024

Redes de solidariedade reforçam auxílio aos povos indígenas e quilombolas do Rio Grande do Sul

Publicado originalmente em The Conversation Brasil no dia 8 maio 2024 15:31 -03.

 

Segundo informações da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, até o dia 07 de maio cerca de 80% dos municípios gaúchos já tinham sofrido algum impacto relacionado às cheias que atingem o estado. Já são mais de 1,3 milhão de pessoas direta e indiretamente afetadas, comprovando o enquadramento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima de “pior catástrofe socioambiental da história do Rio Grande do Sul”.

Nesse contexto, atuações múltiplas de redes de solidariedade demonstram agilidade, capilaridade e resiliência para atender as necessidades básicas da população, e questionam a baixa efetividade de ações governamentais nos esforços de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e de adaptação a esses novo cenário cada vez mais hostil.

As experiências das redes de solidariedade no Brasil – caracterizadas por práticas colaborativas de cidadãos, associações de base comunitária, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e parceiros do setor público e privado – historicamente provaram que essa ação coletiva e articulada é possível, e traz bons resultados a curto, médio e longo prazo.

 

A EXPERIÊNCIA NA PANDEMIA

No contexto da pandemia de Covid-19, o mapa colaborativo – iniciativa coordenada pela Universidade Federal do ABC – doze meses após o primeiro caso confirmado, já tinha situado mais de 2200 ações de solidariedade em todo o país.

No caso específico de territórios tradicionais, movimentos sociais como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), assumiram a linha de frente no combate à pandemia, com ações de monitoramento, prevenção e contenção, assim como distribuição de alimentos e garantia da segurança alimentar.

Criada no contexto da pandemia e reativada no desastre ambiental de deslizamentos de terra em São Sebastião em 2023, a campanha “Cuidar é Resistir” do Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra-Paraty-Ubatuba, é um outro exemplo da constante oxigenação dos territórios a partir das redes de solidariedade, garantindo aquisição e distribuição de alimentos e ampliação das trocas solidárias de pescado e produtos agroecológicos.

 

A ATUAÇÃO DAS REDES NA CALAMIDADE ATUAL 

No Rio Grande do Sul, o mesmo aconteceu com a “Missão Sementes de Solidariedade”, inciativa criada no contexto das enchentes do Vale do Taquari no final de 2023, e que foi reativada no atual cenário de calamidade do Estado. Com o foco nas populações camponesas, as ações vão desde socorrer as pessoas em risco de vida, passando por busca e unificação de informações, até a coleta e distribuição de doações.

São mais de 14 organizações e movimentos sociais que fazem parte da Missão, a exemplo de movimentos de grande relevância nacional como o Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Em suas redes sociais, o MPA afirma que as organizações que compõem a “Missão Sementes de Solidariedade: Emergência” permaneceram congregadas e ativas no pós-desastre de 2023, e estão novamente mobilizando recursos, voluntários e ações. Tudo em socorro à população que foi, está ou ainda será atingida”.

Com o foco nas populações indígenas, a APIB e as organizações regionais indígenas de base, como a Comissão Guarani Yvyrupa, colocam o holofote em territórios historicamente invisibilizados pela sociedade e articulam ações de solidariedade. Pelo menos 80 comunidades indígenas dos povos Guarani Mbya, Kaingang, Xokleng e Charrua, localizadas em 49 municípios gaúchos, foram diretamente impactadas pelas cheias que atingiram o estado, como ilustra o mapa abaixo:

Fonte: Levantamento conjunto feito por Cimi Regional Sul, Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), FLD/Comin/Capa, Cepi/RS
Elaboração de Tiago Miotto/CIMI – retirado de publicação do instagram @yvyrupa.cgy no dia 07/06/24

 

No âmbito da diversidade de territórios do Rio Grande do Sul afetados, a CONAQ dá visibilidade para as comunidades quilombolas: “O estado do RS soma hoje mais de sete mil famílias quilombolas. São aproximadamente 850 famílias atingidas diretamente e cerca de 1300 indiretamente. As famílias das comunidades hoje estão enfrentando um desastre pelas enchentes, e parte dessas famílias se encontram ilhadas, sem acesso a alimentos, a água e energia”, escreveram os gestores da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas nas suas redes sociais.

 

E O PAPEL DA CIÊNCIA?

Os exemplos dessas ações coletivas que atuam com populações camponesas, povos indígenas e comunidades quilombolas, ilustram a relevância dos conhecimentos localizados na garantia das necessidades básicas, na construção de soluções de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, e na implementação de estratégias de desenvolvimento sustentável e inclusivo.

Essa relevância, contudo, não é abordada quando se fala do papel da Ciência nesses desastres. O foco é comumente colocado em cientistas de universidades renomadas e representantes de organizações internacionais, que reiteradamente abordam o papel das grandes infraestruturas científicas e da modelagem de dados, o que pode resultar em soluções menos contextualizadas no paradigma “one size fits all”, que reproduz desigualdades e invisibiliza a diversidade social, ambiental, cultural e fundiária.

A complementariedade entre os conhecimentos produzidos nos territórios e os conhecimentos produzidos nas instituições de ciência e tecnologia podem potencializar as ações de prevenção de grandes desastres e as respostas imediatas em contextos de situações emergenciais.

Essa complementariedade começa com a visibilidade das redes de solidariedade atuantes de Norte a Sul do Brasil e o reconhecimento das ações coletivas e articuladas como pilar fundamental de um novo horizonte, orientado para uma melhoria da vida humana e não humana na atualidade e para o futuro.

Importante ressaltar que essas e outras redes permeiam os espaços institucionais da política pública, agregando representantes e servidores dos mais diversos órgãos que fortalecem as ações. O espaço do ativismo e o espaço institucional também se complementam para salvar vidas.

Para contribuir com essas e outras ações, sugerimos conferir as páginas oficiais das redes mencionadas neste texto:

 

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Autores

Doutoranda em Política Científica e Tecnológica no DPCT, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Coordenadora de Programas e Políticas Públicas de WTT.

 

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

 

Professora do Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)